Enquanto o país continua a gastar milhões no combate às epidemias, hospitais superlotados, campanhas emergenciais e distribuição de medicamentos, uma verdade incômoda permanece ignorada: não se combate doenças apenas tratando os doentes. É preciso eliminar as causas que produzem as enfermidades. E uma das principais causas está visível aos olhos de todos — o lixo acumulado nas ruas, becos, valas de drenagem e espaços públicos.
Icolo e Bengo enfrenta hoje um dos mais sérios problemas de saneamento básico e gestão de resíduos sólidos. Em muitos bairros, o lixo tornou-se parte da paisagem urbana. Sacos plásticos, restos de alimentos, águas paradas, esgotos a céu aberto e montanhas de resíduos criam um ambiente perfeito para a proliferação de mosquitos, ratos, baratas e inúmeras bactérias responsáveis por doenças perigosas.
A pergunta que a população faz é simples: até quando continuaremos a combater apenas as consequências e ignorar as causas?
O ciclo repetitivo das epidemias
Todos os anos o mesmo cenário se repete. Surgem surtos de malária, cólera, febre tifoide, diarreias agudas e outras doenças associadas à falta de saneamento. As autoridades correm para mobilizar recursos financeiros, importar medicamentos, reforçar hospitais e realizar campanhas de emergência.
Mas, passado algum tempo, tudo volta novamente.
Por quê?
Porque o foco principal não está sendo atacado. Não adianta investir apenas em tratamentos hospitalares quando o ambiente continua contaminado. Não adianta distribuir medicamentos enquanto toneladas de lixo continuam acumuladas ao lado das residências, escolas, mercados e vias públicas.
As epidemias não nascem nos hospitais. Elas começam nas ruas sujas, nos becos sem limpeza, nas águas estagnadas e no abandono do saneamento básico.
O lixo tornou-se uma ameaça à vida
Em vários pontos de Icolo e Bengo, o lixo deixou de ser apenas um problema ambiental. Hoje representa uma ameaça direta à vida humana.
As crianças brincam perto de resíduos contaminados. Famílias convivem diariamente com mau cheiro e insetos. Em épocas chuvosas, os resíduos entopem valas e canais de drenagem, provocando inundações e aumentando ainda mais os riscos sanitários.
A ausência de recolha regular de lixo em muitas zonas demonstra uma grave deficiência estrutural na gestão pública do saneamento. Em algumas áreas, os moradores são obrigados a criar lixeiras improvisadas por falta de contentores e serviços eficientes de recolha.
O resultado é previsível: aumento das doenças, degradação da qualidade de vida e crescimento da insegurança sanitária.
Gastar milhões sem resolver o problema principal
O Estado continua a gastar recursos elevados em respostas emergenciais às crises epidemiológicas. Contudo, combater apenas os efeitos sem eliminar as causas transforma o problema numa máquina permanente de desperdício financeiro.
É mais barato prevenir do que remediar.
Investir seriamente no saneamento básico, recolha regular de lixo, drenagem urbana, educação ambiental e fiscalização poderia reduzir drasticamente os gastos hospitalares e o número de mortes provocadas por doenças evitáveis.
A verdade é dura, mas necessária: enquanto o lixo dominar os bairros, as epidemias continuarão a regressar.
Falta de educação ambiental também agrava a situação
Embora a responsabilidade principal recaia sobre as autoridades competentes, também é importante reconhecer que parte da população contribui para o agravamento do problema.
Muitos cidadãos continuam a descartar lixo em locais inadequados, valas de drenagem, ruas e terrenos baldios. Falta educação ambiental, consciência coletiva e maior participação comunitária na preservação dos espaços públicos.
A luta contra o lixo deve ser uma responsabilidade compartilhada entre governo, administrações locais e cidadãos.
Sem mudança de comportamento, qualquer esforço institucional será insuficiente.
O saneamento deve ser prioridade nacional
Não existe desenvolvimento verdadeiro sem saneamento básico. Não existe saúde pública eficiente em ambientes sujos. Não existe dignidade social onde o lixo domina as ruas.
Icolo e Bengo precisa urgentemente de:
* Reforço dos sistemas de recolha de lixo;
* Criação de aterros sanitários adequados;
* Limpeza permanente de ruas, becos e valas;
* Investimentos sérios em drenagem urbana;
* Campanhas contínuas de educação ambiental;
* Fiscalização rigorosa contra descarte irregular de resíduos;
* Maior envolvimento comunitário nas ações de limpeza.
O combate às epidemias deve começar muito antes dos hospitais. Deve começar na prevenção, na limpeza urbana e na eliminação das condições que permitem a proliferação das doenças.
Conclusão
Continuar a gastar enormes recursos financeiros apenas no tratamento das epidemias, sem atacar as suas verdadeiras origens, é insistir num ciclo de fracasso permanente.
O lixo acumulado nas ruas e becos de Icolo e Bengo não é apenas um problema visual — é uma bomba sanitária silenciosa que ameaça diariamente a saúde da população.
Se quisermos reduzir doenças, salvar vidas e melhorar a qualidade de vida das comunidades, é indispensável colocar o saneamento básico no centro das prioridades nacionais.
Porque a verdadeira solução não está apenas nos hospitais.
A verdadeira solução começa na limpeza das nossas ruas.
Deusinho Zambel Tiago,
Psicólogo, jornalista e analista de política.