Num Estado Democrático e de Direito, a divergência política constitui um direito legítimo e indispensável para o fortalecimento das instituições. A crítica aos governantes, às políticas públicas e às decisões do poder faz parte da liberdade de expressão e do pluralismo democrático. Contudo, existe uma fronteira ética que jamais deve ser ultrapassada: a celebração da doença, do sofrimento ou da morte de qualquer ser humano.
Nos últimos dias, perante as notícias de que o Presidente da República de Angola, João Manuel Gonçalves Lourenço, se encontra na República Federativa do Brasil para receber acompanhamento ou tratamento médico, multiplicaram-se nas redes sociais comentários marcados por um elevado grau de intolerância. Entre mensagens de solidariedade, surgiram igualmente publicações desejando o agravamento do seu estado de saúde e até a sua morte.
Independentemente da veracidade de cada informação divulgada ou da posição política de cada cidadão, importa reafirmar um princípio elementar da convivência humana: desejar a morte do próximo não é um exercício de liberdade de expressão; é uma manifestação de desumanização que empobrece moralmente a sociedade.
João Lourenço é, antes de tudo, um ser humano. É pai, marido, cidadão e Presidente da República. Como qualquer pessoa, está sujeito às fragilidades próprias da condição humana. Nenhum cargo elimina a vulnerabilidade da vida. Nenhuma responsabilidade política transforma um homem num ser desprovido de dignidade.
É perfeitamente legítimo que existam cidadãos que discordem da sua governação. É legítimo que apontem erros, apresentem alternativas, fiscalizem a acção governativa e exijam melhores resultados. A democracia alimenta-se precisamente desse exercício crítico. Todavia, a crítica política jamais deve converter-se em discurso de ódio ou em celebração da tragédia humana.
A história demonstra que as sociedades mais maduras distinguem claramente o combate político da agressão pessoal. Os grandes líderes mundiais, independentemente das suas ideologias, quando enfrentam problemas graves de saúde, costumam receber mensagens de pronta recuperação vindas até dos seus adversários políticos. Isso não significa concordância com as suas políticas, significa apenas respeito pela vida humana.
Quem hoje deseja a morte de um adversário político esquece-se de que amanhã poderá ser ele próprio ou um familiar a enfrentar a doença, necessitando da mesma solidariedade humana que hoje nega ao outro. A vida ensina que o sofrimento não escolhe partidos políticos, religiões, classes sociais nem posições ideológicas.
É igualmente preocupante verificar como as redes sociais têm contribuído para normalizar discursos de ódio. Muitos escondem-se atrás do anonimato para insultar, difamar e atacar a honra das pessoas, acreditando que a tecnologia lhes concede impunidade moral. Não concede. O anonimato pode esconder um nome, mas nunca elimina a responsabilidade ética pelas palavras que se escrevem.
O respeito pelas instituições da República também passa pelo respeito aos seus titulares. Criticar o Presidente da República não significa atacar a sua condição humana. Defender mudanças políticas não implica desejar a eliminação física de quem ocupa temporariamente um cargo público. Os cargos passam, a dignidade da pessoa permanece.
Uma sociedade que transforma a doença de alguém em motivo de celebração corre o risco de perder a sua própria humanidade. Hoje é um Presidente, amanhã poderá ser qualquer cidadão comum. Quando a compaixão desaparece, todos se tornam vulneráveis ao mesmo ambiente de intolerância que ajudaram a construir.
Os angolanos têm demonstrado, ao longo da sua história, uma extraordinária capacidade de superação, reconciliação e solidariedade. Depois de décadas de conflito, o país escolheu o caminho da paz e da convivência. Não faz sentido permitir que o debate político destrua esses valores fundamentais.
É tempo de recuperar a serenidade no discurso público. É tempo de recordar que o respeito nunca representa fraqueza. Pelo contrário, revela maturidade, educação e elevação moral.
Que cada cidadão possa continuar a exercer plenamente o seu direito de criticar, fiscalizar e exigir melhor governação. Mas que o faça sempre dentro dos limites do respeito pela vida, pela honra e pela dignidade humana.
Ao Presidente João Lourenço, como a qualquer outro cidadão que enfrente problemas de saúde, desejam-se votos de pronta recuperação, não por unanimidade política, mas por um princípio que deve unir toda a humanidade: a vida humana merece respeito.
As diferenças políticas terminam onde começa o valor absoluto da vida. A ética, a civilidade e o humanismo exigem que jamais confundamos oposição política com desumanização. Uma Angola mais forte constrói-se com debate firme, respeito mútuo e defesa incondicional da dignidade de todas as pessoas.
Ninguém é dono da verdade e muito menos da sabedoria. A tendência de desejar que seu próximo deixe o mundo dos vivos a qualquer preço revela falta de maturidade e a tendência da insanidade mental de alguns cidadãos que se fazem passar de intelectuais, políticos ou mesmo sabichões, movidos de discursos barulhentos pior do que um tambor vazio.