Há épocas em que o silêncio pesa mais do que qualquer discurso. Há épocas em que os sorrisos escondem tempestades e os apertos de mão carregam o frio da desconfiança. É precisamente esse tempo que parece voltar a instalar-se sempre que chegam as Conferências Municipais Ordinárias.
As Conferências Comunais terminaram. Agora abre-se a etapa municipal, momento reservado ao balanço do percurso, à renovação de mandatos, à continuidade de uns e à ascensão de outros. No papel, trata-se de um exercício democrático da vida orgânica do partido. Na prática, para muitos militantes, é também um período de ansiedade, expectativas e provações.
É quando começam as queimadas.
Não queimadas de capim, mas de reputações.
Não incêndios nas matas, mas incêndios lançados contra a honra de homens e mulheres que, durante anos, deram o seu tempo, a sua inteligência e até a própria tranquilidade em nome da organização.
Os gabinetes dos candidatos a Primeiro Secretário Municipal passam a ser salas de romaria. Entram e saem visitantes que se apresentam como conselheiros, estrategas ou amigos leais. Alguns levam propostas. Outros levam apenas veneno.
Sussurram ao ouvido:
— "Aquele nunca foi verdadeiramente do partido."
— "O outro é quem está a destruir a organização no município."
— "Cuidado com esse... é próximo da oposição."
E, de tanto repetir a mentira, há quem espere que ela adquira aparência de verdade.
É a fase em que muitos deixam de ser avaliados pelo trabalho realizado e passam a ser julgados pelas histórias que outros inventam sobre eles. O mérito perde espaço para a intriga; a dedicação é abafada pelo boato; a lealdade é medida pela conveniência de quem fala mais alto.
Assim começam os assassinatos de carácter.
Não deixam sangue nas ruas, mas deixam marcas profundas na alma. Não aparecem nos hospitais, mas adoecem famílias, destroem amizades e semeiam desconfiança entre camaradas que ontem caminhavam lado a lado.
Há militantes que são derrotados antes mesmo de apresentarem qualquer proposta. São psicologicamente abatidos no caminho, atingidos por rumores, suspeitas e insinuações. Tornam-se culpados sem julgamento, condenados sem defesa e afastados antes que a própria militância possa decidir o seu destino.
É triste quando a competição deixa de ser de ideias e passa a ser de destruição pessoal.
Nenhuma organização cresce quando transforma a calúnia em argumento, a intriga em estratégia e a difamação em instrumento de disputa. Porque, no fim, ninguém vence verdadeiramente. Perde quem é injustiçado, perde quem promove o veneno e perde a própria organização, que vê a confiança ser substituída pelo medo.
As conferências deveriam ser momentos de reflexão, renovação e fortalecimento da unidade. Deveriam premiar o trabalho, a competência, a dedicação e a capacidade de servir.
Que as diferenças políticas não sejam confundidas com inimizades pessoais. Que a crítica seja feita com responsabilidade e baseada em factos, e não em rumores. E que nenhum militante seja condenado apenas porque alguém decidiu falar mais alto.
As queimadas passam. A fumaça desaparece. Mas as cicatrizes dos assassinatos de carácter podem permanecer por muitos anos, lembrando que as palavras, quando usadas sem responsabilidade, têm o poder de destruir aquilo que décadas de militância levaram uma vida inteira a construir.
Mesmo aqueles que em dois mandatos se doaram à vida interna do partido e na mobilização frenética que resultaram em vitórias eleitorais, ainda assim não são poupados sob rótulo de não prestáveis, muitas vezes confundidos por suas exigências e rigor ao trabalho partidário.
Mas no fundo, esses mesmos papagaios armados de flechas na língua revelam-se perigosos e maus militantes que nada ajudam no fortalecimento do Partido. São esses maldosos que quando a ansiedade lhes sobe até à cabeça, preferem pisotear tudo e todos para subir no degrau pulando etapas.
E depois o que resta é apenas um misto de imaginação à quem foi imposto a ouvir tudo de podre, custando-lhe fazer escolhas a seu critério. O MPLA tem de saber lidar com toda a orquestra dos manipuladores, para não voltar a experimentar o cenário sombrio de 2022.