Há comportamentos que não precisam de discursos para se denunciarem. Revelam-se nas pequenas decisões, nos silêncios propositados, nas informações que chegam à mesa de uma chefia e misteriosamente desaparecem antes de chegar ao público.
É o caso daquele responsável de redacção que recebe regularmente notícias enviadas por um correspondente, sabe que são pertinentes, actuais e capazes de gerar interesse, mas decide simplesmente não as publicar. Não porque sejam falsas. Não porque estejam mal escritas. Não porque contrariem a linha editorial. Não porque lhes falte relevância.
Simplesmente porque vieram de baixo ou de alguém que não goza de alguma afinidade de alguem lá de cima
E quando a informação vem de baixo ou de alguém que não goza de alguma afinidade de alguém lá de cima, alguns confundem liderança com propriedade. Esquecem-se de que o correspondente não trabalha para alimentar o ego de quem está acima, mas para alimentar uma plataforma que precisa de informação, actualidade e audiência que visa espandir e dar visibilidade da instituição para a qual a plataforma digital ou analógica trabalha.
É aqui que começa o problema.
Uma redacção não pode transformar-se num território de vaidades onde a competência do subordinado é encarada como ameaça pelo superior. O jornalista ou correspondente que procura a notícia, desloca-se, observa, entrevista, recolhe dados e envia o material está a cumprir uma missão. Se a chefia, por ciúme, arrogância, reservismo ou espírito de protagonismo, decide engavetar esse trabalho, não está a punir apenas o correspondente.
Está a punir a própria instituição. Porque uma notícia não publicada é uma oportunidade perdida. É audiência perdida. É relevância perdida. É presença pública perdida. É credibilidade que se desgasta silenciosamente.
O mais preocupante é quando essa prática se transforma numa cultura. O correspondente começa a perceber que, por melhor que seja o seu trabalho, existe uma barreira invisível entre aquilo que produz e aquilo que chega ao público. sobretudo e instituições políticas que se socorrem das plataformas digitais, mais usadas para a difusão das matérias que abordam diversas realizações.
Então surge a pergunta inevitável:
Para que serve trabalhar mais, procurar melhor e produzir mais, se alguém pode simplesmente colocar tudo numa gaveta?
É assim que se mata a iniciativa. É assim que se destrói a motivação. É assim que se afugentam talentos.
E é assim que instituições que poderiam crescer acabam pequenas, não por falta de profissionais capazes, mas por excesso de egos dentro da estrutura.
Uma chefia editorial tem todo o direito de seleccionar, corrigir, editar e até rejeitar uma notícia. Isso faz parte das suas responsabilidades. Mas existe uma diferença abissal entre decisão editorial e bloqueio pessoal. A primeira protege a instituição. A segunda protege o ego.
A primeira procura qualidade.
A segunda procura controlo.
A primeira pergunta: “Esta notícia serve a nossa audiência?”
A segunda pergunta, muitas vezes silenciosamente: “Quem vai aparecer com esta notícia?”
E quando a segunda pergunta passa a comandar uma redacção, o jornalismo começa a perder para o protagonismo.
O chefe que tem medo de que o seu correspondente seja reconhecido não compreendeu ainda uma verdade elementar: o brilho do colaborador não diminui a autoridade da chefia; pelo contrário, demonstra que a liderança soube formar, coordenar e aproveitar talentos.
Um grande treinador não tem medo do jogador que marca golos.
Um grande maestro não tem medo do músico que se destaca.
Um grande líder não tem medo de colaboradores competentes.
Pelo contrário: promove-os.
O verdadeiro chefe não precisa apagar ninguém para aparecer. A sua autoridade nasce precisamente da capacidade de fazer os outros produzirem, crescerem e contribuírem para o sucesso colectivo.
em desenvolvimento...