
A economia mundial atravessa um período de profundas transformações, marcado pela disputa de influência entre as grandes potências, pelas tensões comerciais, pela instabilidade dos mercados e pelo crescente questionamento dos mecanismos tradicionais de financiamento internacional.
Neste cenário, África enfrenta uma contradição histórica: é um continente dotado de abundantes recursos minerais, energéticos, agrícolas e humanos, mas continua a confrontar-se com elevados níveis de endividamento, dificuldades de financiamento do desenvolvimento e dependência da exportação de matérias-primas com reduzido valor acrescentado.
A pergunta impõe-se: como pode África transformar a sua riqueza natural em prosperidade colectiva quando uma parte significativa das suas economias permanece condicionada pelo custo da dívida externa, pelas oscilações dos mercados internacionais e pela necessidade de obter divisas para honrar compromissos financeiros?
O dólar norte-americano continua a ocupar uma posição central no sistema monetário internacional. Essa predominância não significa que a moeda esteja prestes a desaparecer ou que o sistema financeiro mundial tenha deixado de funcionar. Significa, porém, que muitos países africanos permanecem expostos às decisões monetárias das grandes economias, às variações cambiais e às condições de financiamento determinadas fora do continente.
Quando um país contrai empréstimos denominados em dólares, uma desvalorização da sua moeda nacional pode aumentar significativamente o custo do serviço da dívida. Se, simultaneamente, os preços internacionais do petróleo, do cobre, do cobalto ou de outras matérias-primas diminuírem, as receitas necessárias para pagar esses compromissos também podem cair.
É neste círculo de vulnerabilidade que África precisa de encontrar alternativas sustentáveis.
A dívida externa: quando o futuro fica comprometido
O endividamento público não é, por si só, um mal económico. Quando os recursos obtidos são aplicados na construção de infra-estruturas, na industrialização, na agricultura, na educação, na saúde e na criação de emprego, a dívida pode contribuir para o desenvolvimento.
O problema surge quando os empréstimos acumulados exigem pagamentos cada vez mais pesados, sem que os investimentos realizados produzam receitas suficientes para assegurar o seu reembolso.
O Banco Mundial, no seu International Debt Report 2025, revelou que os países de rendimento baixo e médio pagaram, entre 2022 e 2024, mais 741 mil milhões de dólares em capital e juros da dívida externa do que receberam em novos financiamentos. Trata-se do maior fluxo líquido negativo registado em pelo menos cinco décadas, segundo a instituição.
Este dado evidencia a dimensão do desafio enfrentado por numerosas economias em desenvolvimento.
Em vários países africanos, o serviço da dívida concorre directamente com as necessidades de investimento público. Recursos que poderiam financiar hospitais, escolas, estradas, sistemas de abastecimento de água e programas de apoio à produção nacional são absorvidos pelo cumprimento de obrigações financeiras.
A consequência é particularmente preocupante quando os Estados precisam de recorrer a novos empréstimos para liquidar compromissos anteriores, prolongando a dependência financeira e reduzindo a margem de decisão das gerações futuras.
Não basta, por isso, perguntar quanto dinheiro um país consegue emprestar. É necessário perguntar para que serve esse dinheiro, que riqueza produz e em quanto tempo poderá gerar benefícios económicos e sociais superiores ao seu custo.
Recursos africanos, riqueza alheia?
África possui recursos estratégicos essenciais para a economia contemporânea. Petróleo, gás natural, diamantes, cobre, cobalto, lítio, manganês, terras raras e outros minerais alimentam sectores fundamentais da indústria, da energia, das telecomunicações e das tecnologias digitais.
Contudo, a existência de riqueza natural não garante automaticamente desenvolvimento.
O verdadeiro desafio reside na capacidade de os países africanos controlarem, em condições transparentes e economicamente vantajosas, a exploração dos seus recursos; negociarem contratos equilibrados; combaterem a evasão fiscal; reforçarem a fiscalização das receitas e criarem indústrias nacionais capazes de transformar matérias-primas em produtos de maior valor comercial.
Quando um país exporta recursos em estado bruto e importa os produtos transformados a preços mais elevados, perde oportunidades de industrialização, emprego especializado, transferência de tecnologia e arrecadação fiscal.
A situação torna-se ainda mais delicada quando receitas futuras provenientes da exploração mineral ou petrolífera são utilizadas como garantia de empréstimos sem uma avaliação rigorosa dos riscos e dos benefícios para as gerações presentes e futuras.
A questão fundamental não é rejeitar o investimento estrangeiro. É assegurar que esse investimento contribua efectivamente para o desenvolvimento nacional, em vez de perpetuar relações económicas em que os países produtores permanecem dependentes e os centros de transformação industrial concentram uma parcela superior do valor gerado.
África precisa de passar de fornecedora de matérias-primas a participante activa nas cadeias globais de valor.
BRICS, uma oportunidade de diversificação estratégica
É neste contexto que o agrupamento BRICS — que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egipto, Etiópia, Indonésia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — assume crescente relevância no debate sobre a governação económica mundial.
O agrupamento procura ampliar a cooperação entre economias emergentes, reforçar as relações comerciais e financeiras e defender uma representação mais equilibrada dos países em desenvolvimento nas instituições internacionais.
A presença de países africanos como a África do Sul, o Egipto e a Etiópia demonstra que o continente já participa neste espaço de concertação. A Nigéria, por sua vez, aderiu à categoria de país parceiro, alargando as possibilidades de participação africana.
Para os restantes países africanos, incluindo Angola, o debate sobre uma aproximação mais profunda aos BRICS deve ser conduzido com pragmatismo, visão estratégica e avaliação rigorosa dos interesses nacionais.
A adesão ou aproximação ao agrupamento poderá abrir oportunidades de diversificação dos parceiros comerciais, acesso a investimentos, cooperação tecnológica, financiamento de infra-estruturas e desenvolvimento de mecanismos de pagamento que reduzam determinados custos cambiais.
Uma maior utilização das moedas nacionais nas trocas comerciais entre parceiros poderá, em operações específicas, diminuir a necessidade de conversão para o dólar. Contudo, os resultados dependerão da dimensão do comércio bilateral, da convertibilidade das moedas, da confiança dos agentes económicos e da existência de mecanismos de liquidação eficientes.
É importante compreender que os BRICS não constituem uma solução automática para o endividamento africano. O agrupamento reúne economias com interesses distintos e não dispõe de uma moeda única nem de uma política financeira comum comparável à de uma união monetária.
A sua importância reside, sobretudo, na possibilidade de ampliar as opções disponíveis para os países africanos negociarem o seu futuro económico.
A desdolarização deve ser uma escolha económica, não um slogan
O debate sobre a redução da dependência do dólar não deve ser confundido com a necessidade de abandonar abruptamente a moeda norte-americana.
O dólar continua a desempenhar um papel importante no comércio internacional, nas reservas cambiais e nos mercados financeiros. Para muitos países africanos, uma ruptura precipitada com os mecanismos existentes poderia aumentar os custos das transacções, criar dificuldades de liquidez e introduzir novos riscos económicos.
A estratégia mais prudente passa pela diversificação gradual das relações financeiras e comerciais, sempre que existam vantagens demonstráveis.
Isso significa desenvolver acordos bilaterais de compensação de pagamentos, ampliar a utilização de moedas nacionais onde seja viável, fortalecer os sistemas bancários, aumentar as reservas de segurança e promover instrumentos de financiamento adaptados às necessidades das economias africanas.
Significa igualmente fortalecer os mecanismos continentais de integração económica, incluindo a Zona de Comércio Livre Continental Africana, para ampliar o comércio intra-africano e reduzir a vulnerabilidade resultante da excessiva concentração das exportações em poucos mercados.
A soberania monetária não se conquista apenas mudando a moeda utilizada nas transacções. Conquista-se também produzindo mais, exportando produtos transformados, aumentando a produtividade, desenvolvendo os mercados financeiros nacionais e reduzindo a dependência de importações essenciais.
Angola perante os desafios da nova economia mundial
Para Angola, país com importantes recursos petrolíferos, minerais e potencial agrícola, a diversificação das parcerias económicas internacionais constitui uma questão estratégica.
A dependência das receitas petrolíferas expõe a economia nacional às oscilações dos preços internacionais e à evolução da procura mundial. Paralelamente, as obrigações da dívida externa podem exercer pressão sobre as contas públicas, sobretudo quando as receitas em divisas diminuem ou as condições de financiamento se tornam mais exigentes.
Neste quadro, uma aproximação estratégica aos BRICS poderá ser analisada em áreas como a transformação industrial, a agricultura, a energia, os transportes, a logística, a tecnologia e a formação de quadros nacionais.
Mas Angola deve negociar com base em prioridades concretas e resultados mensuráveis.
Qualquer parceria deverá ser avaliada pela sua capacidade de gerar emprego, transferir conhecimento, desenvolver empresas nacionais, aumentar as exportações não petrolíferas e contribuir para a sustentabilidade da dívida pública.
Os contratos de financiamento garantidos por receitas petrolíferas ou outros recursos naturais exigem particular transparência. As suas condições, os custos efectivos, os prazos de reembolso e os riscos associados devem ser devidamente avaliados, para que os benefícios imediatos não comprometam excessivamente as receitas futuras.
A aproximação aos BRICS deve complementar, e não substituir, uma política externa económica diversificada, que mantenha relações construtivas com a Europa, os Estados Unidos, as economias asiáticas e os parceiros africanos.
A questão não consiste em trocar uma dependência por outra, mas em aumentar a capacidade de negociação de Angola perante todos os seus parceiros.
Uma estratégia africana para além dos empréstimos
A resposta africana aos desafios do sistema financeiro internacional não pode limitar-se à procura de novos credores.
É indispensável mobilizar recursos internos, combater os fluxos financeiros ilícitos, melhorar a cobrança de impostos, reforçar a transparência orçamental e criar condições para que a poupança nacional financie investimentos produtivos.
Os governos africanos devem igualmente cooperar na negociação de condições de financiamento mais favoráveis, na reestruturação sustentável de dívidas insuportáveis e na reforma das instituições financeiras internacionais, para que as condições de acesso ao capital tenham maior correspondência com as realidades económicas do continente.
A diversificação dos parceiros deve ser acompanhada por uma avaliação independente dos projectos, pela publicação dos contratos relevantes, pelo controlo parlamentar e pela fiscalização dos benefícios públicos.
Nenhum país se torna economicamente soberano apenas porque recebe financiamento de uma potência diferente. A soberania depende da qualidade das instituições, da capacidade produtiva, da transparência na gestão dos recursos e da possibilidade de tomar decisões sem comprometer de forma desproporcionada o futuro nacional.
Para concluir, África precisa de parceiros, não de novas dependências
O mundo está a reorganizar as suas relações económicas e financeiras. A ascensão de novas potências, a expansão dos BRICS e a discussão sobre a diversificação monetária abrem oportunidades que os países africanos devem estudar com seriedade.
A adesão, a parceria ou a aproximação aos BRICS poderá representar uma via adicional para ampliar o comércio, atrair investimento produtivo e diversificar as fontes de financiamento. Todavia, os resultados dependerão da capacidade de cada Estado para negociar condições favoráveis, proteger os seus recursos e transformar oportunidades externas em desenvolvimento interno.
África não pode continuar a medir a sua riqueza apenas pelo volume de petróleo extraído, pelos minerais exportados ou pelos empréstimos obtidos nos mercados internacionais. Deve medi-la também pelas fábricas que constrói, pelos alimentos que produz, pelas tecnologias que domina, pelos empregos que cria e pela qualidade de vida que proporciona às suas populações.
O continente precisa de superar a condição de simples fornecedor de matérias-primas e afirmar-se como produtor industrial, parceiro comercial competitivo e participante activo na definição das regras da economia mundial.
A verdadeira independência económica de África não será alcançada pela substituição de uma moeda por outra, nem pela troca de um credor por outro. Será construída quando os recursos africanos forem convertidos em capacidade produtiva, prosperidade partilhada e liberdade efectiva de decisão.
É tempo de África diversificar as suas alianças, fortalecer a cooperação continental e negociar com todos os parceiros a partir de uma posição de maior capacidade económica. Os BRICS podem fazer parte desse caminho, desde que a prioridade permaneça inequívoca: o interesse dos povos africanos e a construção de um futuro em que a riqueza do continente se traduza em desenvolvimento para os seus cidadãos.
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