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A fragilidade de muitos projectos políticos
O amiguismo e outras práticas como a bajulação enfraquecem projectos politicos
Por Kamuambi Ndô Mbâxi
Publicado em 05/01/2026 21:40 • Atualizado 05/01/2026 21:42
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Exemplo do famoso lambe botas

O amiguismo, a exclusão, a ambição pessoal, a bajulação e a incompetência como fatores que fragilizam partidos políticos, com foco no contexto angolano e nas tendências atuais.

Amiguismo, Exclusão e Ambição Pessoal, são as Tendências que Estão a Fragilizar os Partidos Políticos em Angola

Em qualquer democracia funcional, os partidos políticos são pilares fundamentais: representam visões, disputam ideias, organizam a participação dos cidadãos e orientam projetos de governação. Porém, em Angola, tal como em muitos países africanos, estes partidos enfrentam uma erosão silenciosa, causada não apenas por fatores externos, mas principalmente por comportamentos internos que corroem a sua credibilidade e capacidade de renovação.

Entre os fatores que mais fragilizam os partidos políticos angolanos, destacam-se o amiguismo, a exclusão sistemática de quadros competentes, a ambição pessoal desmedida, a cultura da bajulação e a incompetência elevada a critério de promoção. Estes elementos, combinados, criam um ciclo vicioso que afasta os cidadãos, mina a confiança pública e impede reformas profundas.

O Amiguismo: Quando a Lealdade Pessoal Vale Mais que a Competência

O amiguismo transformou-se numa doença política crónica. Em vez de se valorizar o mérito, a formação, a experiência ou o compromisso com causas públicas, os partidos privilegiam círculos íntimos, amizades pessoais e redes de conveniência.

O resultado é evidente:

Pessoas sem preparação ocupam lugares estratégicos.

Quadros capazes são afastados, ignorados ou empurrados para a marginalidade.

A tomada de decisões transforma-se numa mesa fechada, onde vale mais o «eu conheço» do que o «eu sei fazer».

Quando o amiguismo domina, o partido deixa de ser um projeto coletivo e passa a ser um clube privado de sobrevivência política.

Exclusão Interna é a Morte Lenta da Renovação

Os partidos angolanos vivem hoje um paradoxo curioso: reclamam renovação, mas temem-na profundamente. Jovens preparados, militantes críticos, e quadros independentes são frequentemente excluídos de debates, listas, oportunidades de liderança ou até de simples momentos de escuta.

Cria-se, assim:

Um ambiente tóxico onde apenas os “seguidores obedientes” têm espaço.

Uma cultura de medo que leva muitos militantes a calarem-se para não perderem oportunidades.

A falsa ilusão de unidade, sustentada por silêncio forçado e ausência de debate interno.

Sem inclusão, não há futuro, porque os partidos envelhecem por dentro, perdem dinamismo e afastam as novas gerações.

Ambição Pessoal: O Partido Como Palco de Ascensão Individual

Cada vez mais, a política angolana vive uma lógica individualista: alguns ingressam nos partidos não para servir, mas para serem servidos; não para defender causas, mas para defender carreiras; não para lutar por transformações sociais, mas por benefícios pessoais.

Essa ambição descontrolada gera:

Conflitos internos permanentes.

A sabotagem de outros militantes, apenas para garantir ascensão.

A instrumentalização do partido como trampolim para cargos públicos.

Quando a ambição pessoal se sobrepõe ao projeto coletivo, o partido deixa de ser instrumento de desenvolvimento e passa a máquina de produção de interesses privados.

A Bajulação, a Arte de Servir Líderes em Vez de Servir o Povo

Talvez uma das tendências mais perigosas para os partidos angolanos é a institucionalização da bajulação. Muitos dirigentes já não são cercados por pessoas críticas e competentes, mas por círculos de aplausos, cuja única função é agradar, elogiar e reforçar ego.

A bajulação causa danos profundos:

Os líderes deixam de ouvir críticas úteis e perdem a perceção real do país.

As más decisões tornam-se inevitáveis, porque ninguém tem coragem de contrariá-las.

O partido transforma-se num ambiente de culto à personalidade.

Um partido repleto de bajuladores nunca cresce — apenas se afunda lentamente, sorridente e inconsciente.

A Incompetência: A Herança Perigosa do Amiguismo

A promoção de pessoas incompetentes por critérios de amizade, lealdade cega ou bajulação tem sido devastadora. Não é raro ver dirigentes sem capacidade para liderar, para planificar, para falar em público ou até para compreender a complexidade dos problemas nacionais.

Quando a incompetência chega ao topo:

As estruturas locais desorganizam-se.

A comunicação com os militantes quebra-se.

As comunidades deixam de levar o partido a sério.

O descrédito torna-se inevitável.

A incompetência é, talvez, o maior veneno da política contemporânea em Angola.

A Consequência Maior: A Descredibilização

Frente ao Cidadão

Nenhum partido sobrevive quando perde a confiança do povo.

E o cidadão angolano está hoje mais atento, mais informado, mais crítico. Já não aceita facilmente discursos vazios, promessas repetidas ou lideranças sem legitimidade moral.

Os partidos que insistirem:

na exclusão, no amiguismo, na bajulação, na incompetência, e na ambição pessoal desmedida, verão a sua base social evaporar lentamente.

O eleitorado não é cego — apenas foi paciente durante demasiado tempo.

O Caminho da Regeneração: Regressar à Política de Verdade

A boa notícia é que ainda há tempo para mudar.

Partidos políticos podem renovar-se  se tiverem coragem.

Alguns passos essenciais incluem:

Abrir espaço ao debate interno sem medo da crítica.

Valorizar competência, não amizade.

Promover jovens preparados e comprometidos.

Reabilitar quadros experientes injustamente excluídos.

Eliminar a cultura da bajulação e recuperar a ética da verdade.

Reconstruir o sentido de missão pública.

Um partido forte constrói-se com ética, disciplina, inteligência política e compromisso real com o povo — não com círculos de amigos interessados em privilégios temporários.

Afinal, Angola Merece Partidos Melhores

Em pleno século Vinte e Um, Angola precisa de partidos políticos robustos, democráticos e transparentes; partidos capazes de escutar, dialogar, criticar e corrigir-se; partidos que não temam a renovação, mas que a abracem como sinal de vitalidade.

O amiguismo, a exclusão e a ambição pessoal não são apenas desvios éticos — são ameaças diretas à estabilidade e ao futuro da democracia angolana.

E a sociedade, cada vez mais consciente, exige mudança de postura e exige cada vez mais responsabilidade.

A política tem de ser eriamente serviço público, e não jogo de interesses.

O país merece isso.

O povo merece isso.

E a história cobrará a todos os que insistirem no caminho contrário.

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