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Calumbo expõe fragilidades: a fraca mobilização da OMA como sinal de alarme político no Icolo e Bengo
O cenário observado no Calumbo foi desolador
Por Kamuambi Ndô Mbâxi
Publicado em 13/01/2026 20:31
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...Sorriso fingido

O acto central de celebração do Dia da Organização da Mulher Angolana (OMA), assinalado no passado sábado, 10 de Janeiro de 2026, no município do Calumbo, província do Icolo e Bengo, que deveria constituir um momento alto de afirmação política, mobilização militante e demonstração de força organizativa, acabou por se transformar num episódio embaraçoso e profundamente revelador das fragilidades que minam, de forma silenciosa mas persistente, as estruturas locais do MPLA e da sua organização feminina.

A visível irritação da vice-presidente do MPLA, Mara Quiosa, perante a fraca adesão popular ao acto, não foi um mero excesso de temperamento político. Foi, acima de tudo, a exteriorização de um descontentamento legítimo face a um falhanço organizativo grave, ocorrido num contexto particularmente sensível: um ano pré-eleitoral, em que cada actividade política deveria servir para reforçar a ligação do partido às massas e consolidar a sua base social.

O cenário observado no Calumbo foi desolador. Um acto anunciado como central, mas cuja mobilização mais se assemelhava à de uma simples assembleia de base, sem entusiasmo, sem densidade humana, sem o calor militante que historicamente caracterizou a OMA enquanto força viva do MPLA. Este vazio político não surge do acaso; é o resultado direto de uma cadeia de responsabilidades mal assumidas, de uma liderança local adormecida e de uma perigosa normalização da inércia.

As críticas dirigidas à secretária-geral da OMA, Joana Tomás, revelam tensões internas e falhas na articulação entre a direcção nacional e as estruturas provinciais. Contudo, no centro da tempestade política acabou por emergir a figura de Auzilio Jacob, membro do Bureau Político e primeiro secretário provincial do MPLA no Icolo e Bengo, apontado como responsável direto por uma máquina partidária sem pulso, sem criatividade e, sobretudo, sem empatia com o povo.

A acusação de que “do nada” recaíram sobre Auzilio Jacob todas as culpas não resiste a uma análise mais profunda. A liderança política não se mede apenas por cargos acumulados ou discursos formais, mas pela capacidade de mobilizar, ouvir, corrigir e inspirar. Uma direcção provincial que não consegue galvanizar a sua própria organização feminina, tradicionalmente o braço mais dinâmico do partido, revela um preocupante défice de liderança estratégica.

A OMA no Icolo e Bengo apresenta-se hoje como uma estrutura capturada pela rotina, pela passividade e por um conformismo quase institucionalizado. Falta trabalho de base, falta presença constante nos bairros, falta contacto real com as mulheres que enfrentam diariamente o desemprego, a pobreza, a exclusão social e a ausência de serviços básicos. Sem esse enraizamento comunitário, qualquer acto político está condenado ao fracasso, por mais recursos logísticos que se mobilizem à última hora.

O desastre político de sábado último no Calumbo não pode, nem deve, ser relativizado. Ele constitui um sinal de alarme claro de que, se nada for feito, o MPLA e a OMA no Icolo e Bengo caminham para resultados insatisfatórios nas próximas batalhas políticas. Em política, a ausência de mobilização é muitas vezes o prelúdio da derrota eleitoral. E num contexto de crescente exigência cidadã, o eleitorado já não responde a apelos vazios nem a lideranças distantes da realidade social.

É notório, como se comenta nos bairros e nas bases, que a actual direcção do partido no Icolo e Bengo não goza de simpatia popular. Essa falta de empatia não nasce de campanhas adversárias, mas da percepção de abandono, de arrogância organizativa e de uma gestão política desligada das aspirações concretas das populações. Quando o povo deixa de se reconhecer nos seus dirigentes, o partido perde a sua alma mobilizadora.

Face a este quadro, impõe-se uma reflexão séria e corajosa por parte da estrutura central do MPLA. Não basta identificar culpados pontuais ou emitir reprimendas públicas. É urgente promover mudanças profundas, que passem pela revitalização das lideranças locais, pela renovação de quadros, pela imposição de critérios de desempenho político e, sobretudo, pela recuperação do trabalho de base como eixo central da acção partidária.

O MPLA construiu a sua história a partir da ligação orgânica com o povo. A OMA, em particular, sempre foi sinónimo de militância activa, de proximidade social e de capacidade de mobilização. Permitir que essa herança se dilua em práticas burocráticas e lideranças inertes é comprometer o futuro político do partido numa província estratégica como o Icolo e Bengo.

O Calumbo falou. E o que se ouviu foi um silêncio ensurdecedor de massas ausentes. Ignorar esse aviso seria um erro político de consequências imprevisíveis. A correção de rumo não é apenas desejável; é uma necessidade urgente para quem pretende continuar a merecer a confiança do povo angolano.

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