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Calumbo e Zango ao abandono: quando a insanidade ambiental e o caos urbano se tornam política de omissão
Onde está o Governo do Icolo e Bengo?
Por Kamuambi Ndô Mbâxi
Publicado em 13/01/2026 22:17
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Esse é o cenário ambiental das ruas do Zango município do Calumbo

O Município do Calumbo, integrado na nova Província do Icolo e Bengo, vive hoje um dos períodos mais críticos da sua história recente. O que deveria ser um território de afirmação urbana, organização administrativa e melhoria progressiva da qualidade de vida transformou-se num retrato cru de abandono governativo, desordem ambiental e sofrimento diário das populações. A realidade é dura e inegável: o Calumbo e todo o perímetro do Zango apresentam-se mergulhados numa insanidade ambiental que ofende a dignidade humana e compromete seriamente a saúde pública.

Basta circular pelas principais artérias do Zango para perceber que o lixo tomou conta das ruas. Resíduos domésticos acumulam-se a céu aberto, misturados com restos de comida, plásticos, águas estagnadas e todo tipo de detritos. O cheiro nauseabundo espalha-se por bairros inteiros, invadindo casas, escolas, mercados informais e paragens de táxi. Em muitos pontos, a situação é tão grave que já não se trata apenas de falta de limpeza, mas de uma verdadeira emergência ambiental ignorada pelas autoridades provinciais e municipais.

A pergunta que se impõe é simples e legítima: onde está o Governo do Icolo e Bengo? Onde estão os serviços de saneamento básico, a recolha regular de resíduos sólidos, as campanhas de educação ambiental, a fiscalização e a responsabilização? O silêncio institucional e a inércia administrativa transformaram o lixo em paisagem e o mau cheiro em rotina, como se os cidadãos do Calumbo e do Zango tivessem sido condenados a viver assim.

Paralelamente ao drama ambiental, assiste-se a um colapso total da organização urbana e da mobilidade. Ruas asfaltadas — incluindo vias principais — encontram-se completamente ocupadas por vendedeiras ambulantes, com bancas improvisadas e mercadorias estendidas diretamente no chão. A actividade comercial informal, que deveria ser organizada e enquadrada em mercados apropriados, ocorre de forma anárquica, bloqueando faixas de rodagem, passeios e acessos essenciais. O resultado é o caos diário: engarrafamentos constantes, conflitos entre automobilistas e vendedores, riscos elevados de atropelamentos e um constrangimento permanente para quem precisa simplesmente circular.

Não se trata de criminalizar as vendedeiras, que lutam pela sobrevivência num contexto de dificuldades económicas. O problema é político e administrativo. Falta ordenamento, falta criação de mercados condignos, falta fiscalização equilibrada, falta autoridade do Estado. O poder público assiste, passivo, à ocupação desregrada do espaço urbano, permitindo que o asfalto se transforme em praça de comércio improvisado e perigoso.

É impossível ignorar o sentimento generalizado da população: o Zango está pior que a Funda. E esta comparação, feita pelos próprios munícipes, carrega um peso simbólico forte. O Zango, que em tempos foi apresentado como solução habitacional estruturada, hoje enfrenta níveis de desorganização, lixo e abandono que superam zonas historicamente carentes de infra-estruturas. Isso não é apenas um retrocesso; é um fracasso claro de governação local.

A criação da Província do Icolo e Bengo trouxe expectativas legítimas de maior proximidade do poder, melhor gestão territorial e respostas mais rápidas aos problemas concretos das comunidades. Contudo, no Calumbo, essas promessas ainda não passaram do papel. A ausência de políticas visíveis de saneamento, urbanismo e ordenamento comercial levanta dúvidas sérias sobre a capacidade do governo provincial em responder às necessidades reais da população.

O abandono do Calumbo não é apenas administrativo; é humano. Crianças crescem rodeadas de lixo, famílias convivem diariamente com maus odores e riscos sanitários, trabalhadores perdem horas em engarrafamentos causados pela ocupação desordenada das vias. Tudo isso mina a confiança no Estado e alimenta a sensação de que há cidadãos de primeira e de segunda.

É urgente uma mudança de postura. O Governo do Icolo e Bengo precisa assumir responsabilidades, sair dos gabinetes e encarar a realidade do Calumbo e do Zango. É preciso um plano sério de saneamento ambiental, recolha regular de lixo, criação e reabilitação de mercados, reordenamento do comércio informal e fiscalização contínua. Mais do que discursos, a população exige acção concreta.

O Calumbo não pode continuar a ser sinónimo de abandono. O Zango não pode ser normalizado como território do caos. Governar é cuidar de pessoas, garantir dignidade e criar condições mínimas de vida urbana. Tudo o resto é omissão — e a omissão, neste caso, está a custar caro demais aos munícipes.

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