A história política de Angola demonstra que os partidos que conseguem sobreviver às grandes transformações sociais são aqueles que mantêm viva a sua capacidade de mobilização, escuta e ligação orgânica com as bases. O MPLA, enquanto força política que conduziu o país à independência e lidera os destinos da nação há décadas, construiu ao longo do tempo uma máquina mobilizadora que foi determinante em momentos decisivos da história recente.Entretanto, como acontece em qualquer organização política de grande dimensão, os ciclos históricos trazem desafios que exigem reflexão e renovação permanente.
Hoje, muitos militantes e observadores consideram que chegou o momento de o partido revisitar uma das suas maiores virtudes: a capacidade de mobilizar, ouvir e valorizar os seus quadros na base.
Num passado relativamente recente, quando ondas de instabilidade política varriam várias regiões do mundo, Angola também foi palco de tensões políticas e tentativas de mobilização social inspiradas em movimentos que ficaram conhecidos internacionalmente como a Primavera Árabe.
Em vários países, esses movimentos levaram à queda de governos e a profundas mudanças políticas. Em Angola, porém, o contexto foi diferente. O país, que já tinha vivido décadas de conflito e instabilidade, mostrou uma capacidade particular de resistência institucional e política.
Para muitos militantes do MPLA, essa estabilidade não foi apenas resultado das instituições do Estado, mas também da mobilização política e da capacidade organizativa do partido. A estrutura partidária, desde os comités de acção do partido até aos Comités Comunais, de Distritos, Municipais e Provinciais, funcionou como um verdadeiro sistema de defesa política e ideológica, tendo-se notabilizado muitos quadros fervorosos de peito saliente na linha de frente, mas que hoje foram forçosamente marginalizados por coisas de intrigas desmedidas.
Naquela altura, a máquina mobilizadora do MPLA mostrou-se capaz de dialogar com a população, explicar os riscos de aventuras políticas abruptas e preservar a estabilidade institucional do país.
Durante aquele período de efervescência política, sectores ligados à oposição, particularmente a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), procuraram capitalizar o clima internacional de contestação e protestos.
Segundo a leitura de muitos militantes do MPLA, havia sinais de que se tentava importar para Angola uma lógica de mobilização semelhante à que havia derrubado governos em outras regiões. Essa tentativa, na perspectiva de vários quadros do partido no poder, contaria não apenas com forças internas, mas também com influências externas interessadas em alterar o equilíbrio político do país. Contudo, a realidade angolana revelou-se mais complexa.
A memória histórica da guerra civil, o apego à estabilidade e a presença de estruturas políticas organizadas acabaram por impedir que o país seguisse o mesmo caminho observado em alguns países do Médio Oriente e do Norte de África.
O papel determinante da base militante
Um dos factores frequentemente apontados como decisivo nesse processo foi a acção militante na base. Nos bairros, nas comunas, nas aldeias e nos locais de trabalho, militantes do MPLA desempenharam um papel activo de mobilização e esclarecimento.
Esses militantes não eram necessariamente figuras mediáticas ou dirigentes nacionais. Pelo contrário, eram muitas vezes activistas comunitários, quadros intermédios e militantes históricos que mantinham contacto directo com as populações.
Foi essa rede de militância — construída ao longo de décadas — que ajudou a preservar a estabilidade política num momento considerado sensível.
No entanto, passados alguns anos, surge uma preocupação crescente dentro de sectores do próprio partido: muitos desses quadros mobilizadores parecem hoje afastados das dinâmicas centrais e intermédias da organização.
O esquecimento de quadros valiosos
Entre militantes e analistas políticos próximos do MPLA, tem sido recorrente a reflexão sobre a necessidade de valorizar melhor os quadros do partido, do topo à base.
Em muitos municípios e comunas existem militantes com elevado espírito de activismo, dedicação comprovada e profundo conhecimento da realidade local. São homens e mulheres que participaram activamente nas campanhas políticas, nas acções comunitárias e na defesa das orientações do partido.
Apesar disso, vários desses quadros permanecem no anonimato organizacional, sem reconhecimento proporcional ao seu empenho e capacidade mobilizadora.
Esse fenómeno pode gerar duas consequências preocupantes:
a desmotivação de militantes comprometidos;
a perda gradual da vitalidade da estrutura de base.
A importância de ouvir a base
A força histórica do MPLA sempre esteve ligada à sua capacidade de ouvir o pulsar da sociedade angolana. Durante a luta de libertação, durante a reconstrução nacional e durante os momentos de maior tensão política, o partido conseguiu adaptar-se porque manteve canais de comunicação com as comunidades.
Hoje, esse princípio continua a ser fundamental.
A direcção central precisa compreender que muitas das respostas para os desafios políticos actuais não estão apenas nos gabinetes ou nos círculos institucionais. Elas estão, muitas vezes, nas experiências e no conhecimento acumulado pelos militantes que actuam directamente junto das comunidades.
São esses militantes que percebem, no dia-a-dia, as preocupações reais da população.
Resgatar o espírito de mobilização
Resgatar a máquina mobilizadora do passado não significa regressar ao passado de forma mecânica.
Significa, antes, recuperar valores organizacionais que foram essenciais para a vitalidade do partido:
* proximidade com a população;
* valorização do activismo militante;
* reconhecimento de quadros comprometidos;
* capacidade de mobilização social;
* escuta permanente das bases.
Esses elementos formam a espinha dorsal de qualquer organização política que pretende manter relevância histórica.
Um desafio estratégico para o futuro
Num contexto político cada vez mais competitivo, nenhum partido pode depender apenas da sua história. A legitimidade política precisa ser continuamente renovada através da acção, da organização e da confiança popular.
Para o MPLA, isso implica reencontrar o seu ADN mobilizador e fortalecer o vínculo entre a direcção central e as bases militantes.
Valorizar os quadros esquecidos, incentivar o activismo comunitário e abrir espaço para novas lideranças que emergem das bases pode ser um passo decisivo para reforçar a coesão interna e a capacidade política do partido.
Mais do que uma simples estratégia organizacional, trata-se de um compromisso com a própria história do partido e com o futuro político de Angola.
By: Marciano Zaragoza
Editor de política doméstica