"O DEBATE PÚBLICO EM TORNO DAS DECLARAÇÕES RECENTES DO GENERAL GERALDO SACHIPENGO NUNDASachipengo Nunda e das críticas feitas por Paulo Lukamba Gato"
Mais uma vez, as tensões internas e não resolvidas no seio da UNITA
Publicado em 13/04/2026 15:07
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As revelações feitas por Geraldo Nunda sugerem que, mesmo durante o período da guerra, nem todos os quadros da UNITA estavam alinhados com determinadas práticas que hoje são vistas como cruéis

O debate público em torno das declarações recentes de Geraldo Sachipengo Nunda e das críticas feitas por Paulo Lukamba Gato revela, mais uma vez, as tensões internas e não resolvidas no seio da UNITA. Trata-se de um momento que exige maturidade política, espírito democrático e, sobretudo, respeito pela liberdade de consciência e de expressão — valores que deveriam nortear qualquer organização política que se pretende moderna.

Ao criticar publicamente o seu colega de partido, Paulo Lukamba Gato parece adotar uma postura de intolerância face à pluralidade de opiniões dentro da própria UNITA. As declarações de Geraldo Nunda, feitas numa entrevista à TPA por ocasião dos 24 anos de paz efectiva em Angola, devem ser entendidas dentro de um contexto histórico e humano profundamente complexo. Não se trata, necessariamente, de um ataque gratuito ao passado, mas sim de um exercício de reflexão crítica sobre um período marcado por dor, sacrifícios e decisões controversas.

É importante reconhecer que Jonas Savimbi foi uma figura central na história de Angola, mas isso não o torna imune à análise crítica. Nenhuma liderança, por mais emblemática que seja, está acima da avaliação histórica. Aliás, é precisamente essa capacidade de revisitar o passado com honestidade que permite às organizações políticas evoluírem, corrigirem erros e consolidarem uma cultura democrática interna.

As revelações feitas por Geraldo Nunda sugerem que, mesmo durante o período da guerra, nem todos os quadros da UNITA estavam alinhados com determinadas práticas que hoje são vistas como cruéis ou excessivas. Isso é, de certa forma, natural em qualquer movimento político-militar, especialmente em contextos de conflito prolongado. O que não é saudável é tentar silenciar essas vozes ou deslegitimar quem decide, anos depois, partilhar a sua verdade.

A reação de Paulo Lukamba Gato pode ser interpretada como uma tentativa de preservar uma narrativa única e imaculada do passado da UNITA. No entanto, essa postura contraria os princípios básicos de uma sociedade democrática, onde o contraditório e o debate aberto são essenciais. Ao invés de condenar o seu colega, seria mais construtivo promover um diálogo interno que permita à UNITA reconciliar-se com o seu próprio passado.

Além disso, é preciso considerar que muitos militantes e antigos combatentes carregam ainda memórias dolorosas e experiências traumáticas. Negar-lhes o direito de expressão é perpetuar o silêncio e impedir um verdadeiro processo de reconciliação. Angola, enquanto nação, tem feito esforços no sentido da paz e da reconciliação nacional — e isso inclui encarar o passado com coragem, mesmo quando ele é desconfortável.

Portanto, é perfeitamente legítimo que um quadro ou simples militante da UNITA venha a público manifestar aquilo que sente sobre práticas negativas do passado, incluindo as associadas à liderança de Jonas Savimbi. O que se espera de figuras como Paulo Lukamba Gato é uma postura mais agregadora, que valorize a diversidade de opiniões e contribua para o fortalecimento da democracia interna no partido.

Em última análise, o futuro da UNITA — e de qualquer organização política — dependerá da sua capacidade de ouvir, refletir e evoluir. Silenciar vozes críticas pode até preservar uma imagem no curto prazo, mas compromete seriamente a credibilidade e a relevância no longo prazo.

 

 

 

 

By: Marciano Zaragoza

Editor de política e sociedade

E-mail: antenaditosef@gmail.com

Site: antenaditosefactos.com

 

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