O processo orgânico do IX Congresso do MPLA deve ser encarado com a seriedade que a sua dimensão histórica exige. Não se trata de mais um ritual político ou de um simples exercício interno de reafirmação partidária; trata-se de um momento decisivo para redefinir prioridades, corrigir desvios e, sobretudo, restaurar a confiança entre a base militante e as estruturas de direção. Quando esse processo é contaminado por práticas de compadrio, nepotismo ou favorecimento pessoal, perde-se não apenas a credibilidade interna, mas também a autoridade moral necessária para mobilizar o eleitorado.
É fundamental que o mérito, a competência comprovada, a entrega e o conhecimento profundo da realidade social sejam os critérios orientadores na seleção dos quadros. A lealdade ao partido não pode ser confundida com submissão cega ou alinhamento oportunista; deve antes refletir compromisso genuíno com os ideais e com o projeto político que o partido representa. Só assim será possível construir equipas sólidas, capazes de atuar com eficácia nos bairros, nas comunas, nos municípios e nas províncias, enfrentando com inteligência estratégica os desafios impostos pela oposição.
A preparação para o ciclo eleitoral não começa no dia da campanha, muito menos no dia do voto. Ela constrói-se no terreno, no contacto permanente com as populações, na capacidade de ouvir, de resolver problemas concretos e de comunicar com clareza. Equipas desorganizadas, escolhidas com base em afinidades pessoais ou interesses circunstanciais, dificilmente terão capacidade para neutralizar os intentos da oposição, seja antes, durante ou mesmo após o processo eleitoral. A vitória política não se decreta; constrói-se com trabalho sério, disciplina e visão estratégica.
Por outro lado, é preciso rejeitar com firmeza a tentativa de transformar o processo orgânico do Congresso num palco de protagonismo individual ou num instrumento de promoção pessoal ao nível dos CAP e dos Comités intermédios. A política, quando reduzida à vaidade e ao exibicionismo, afasta-se do seu propósito essencial: servir o interesse coletivo. Aqueles que encaram o processo como uma oportunidade de negócio político ou de afirmação egocêntrica não devem ocupar posições de liderança, pois comprometem a coesão interna e fragilizam a imagem do partido perante a sociedade.
Luanda, em particular, possui um capital humano significativo que não pode continuar a ser negligenciado. Há quadros com experiência, competência e provas dadas que foram, por diferentes razões, afastados ou subaproveitados. Alguns injustamente, outros por dinâmicas internas que não privilegiaram o mérito. Reabilitar esses quadros, integrando-os numa nova lógica de funcionamento baseada na competência e na responsabilidade, pode ser um passo decisivo para revitalizar a ação política e administrativa rumo ao resgate da mística do glorioso MPLA. Ignorar esse potencial é desperdiçar recursos valiosos num momento em que o partido precisa de todas as suas forças.
O IX Congresso deve, portanto, marcar uma viragem qualitativa. Mais do que discursos, exige-se ação concreta: critérios transparentes, processos inclusivos, avaliação rigorosa e responsabilização efetiva. O partido deve mostrar, internamente e para o país, que está disposto a corrigir os seus erros e a alinhar-se com as exigências de uma sociedade cada vez mais consciente e exigente.
Se o processo for conduzido com responsabilidade, justiça e visão de futuro, sem interferências e submissões nos váriosníveis ao arrepio dos Estatutos e de outros instrumentos normativos do partido, o MPLA poderá sair reforçado, não apenas como força política dominante, mas como uma organização capaz de se reinventar e de responder aos desafios do presente. Caso contrário, correr-se-á o risco de perpetuar práticas que minam a confiança e comprometem o futuro. O momento exige coragem política, lucidez e, acima de tudo, compromisso verdadeiro com Angola e com os cidadãos que mesmo reconhecendo o esforço que se imprime, esperam mais resultados.
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Deusinho Zambel Santiago
Psicólogo, Jornalista e analista de política.
"Sou amigo fiel, simpatizante e militante leal ao partido vanguarda do povo angolano"