O recente discurso de Adriano Abel Sapiñala militante e deputado da UNITA, viralizado nas redes sociais, contra o MPLA a quem rotulou de partido de "bandidos", de "gatunos" e de "traficantes", levanta sérias preocupações quanto ao nível do debate político em Angola e ao risco de regressão para uma retórica perigosa, marcada por acusações incendiárias, desprovidas de urbanidade e responsabilidade histórica. Num contexto em que o país ainda consolida a paz alcançada após décadas de conflito, declarações dessa natureza não apenas empobrecem o debate democrático, como também alimentam tensões que deveriam estar definitivamente superadas.
A política, sobretudo em sociedades que viveram guerras prolongadas, exige memória, equilíbrio e sentido de Estado. Ao optar por um discurso de confronto agressivo, Sapiñala parece ignorar que a UNITA não é apenas um ator político atual, mas também um protagonista central de um dos períodos mais dolorosos da história nacional — a longa guerra civil que devastou Angola por cerca de 27 anos. Durante esse período, a UNITA controlou vastas extensões do território, chegando a dominar cerca de 75% do país em determinados momentos, mantendo uma estrutura militar robusta e uma logística que levanta, ainda hoje, questões pertinentes.
Uma dessas questões permanece, de facto, pouco esclarecida: quem sustentou, em termos logísticos e bélicos, a máquina de guerra da UNITA ao longo de tantos anos? A resposta não pode ser reduzida a narrativas simplistas. Há evidências amplamente discutidas no campo histórico e político de que a exploração de recursos naturais, particularmente diamantes em zonas sob seu controlo, desempenhou um papel significativo no financiamento do conflito. Este facto, longe de ser um detalhe, constitui um elemento essencial para compreender a complexidade da guerra e as suas implicações económicas e humanas.
Além disso, episódios mediatizados como o alegado despenhamento de uma aeronave na região da Jamba, associada a atividades ilícitas como o transporte de marfim, continuam a ser evocadas como símbolos de um período marcado por práticas pouco transparende como por exemplo a exploração de diamantes, marfim e tantos outros recursos minerais. Embora tais eventos exijam sempre verificação rigorosa e prudência na sua abordagem, o seu peso simbólico reforça a necessidade de responsabilidade no discurso político atual.
Por outro lado, ao centrar-se apenas na crítica ao MPLA, o discurso de Sapiñala negligencia reconhecer o esforço de reconstrução nacional levado a cabo desde o fim da guerra, em 2002, após a morte de Jonas Savimbi. O país, sob liderança do MPLA, tem investido na reabilitação de infraestruturas destruídas nomeadamente estradas, pontes, escolas, hospitais, muitas delas arrasadas durante o conflito armado. Ainda que existam críticas legítimas à gestão e aos resultados dessas políticas, ignorar completamente esse processo é uma forma de desonestidade intelectual que não contribui para um debate sério.
Importa também destacar que a construção de uma democracia sólida exige mais do que acusações mútuas. Requer ética, respeito institucional e compromisso com a verdade histórica. Quando dirigentes políticos recorrem a linguagem ofensiva ou reducionista, colocam não apenas o seu partido, neste caso, o símbolo do “galo negro” da UNITA, numa posição delicada, mas também fragilizam o próprio sistema democrático.
Angola precisa, mais do que nunca, de um debate político elevado, que reconheça erros do passado, valorize conquistas do presente e construa, com responsabilidade, as bases para o futuro.
Em suma, discursos incendiários como o de Sapiñala, podem gerar aplausos momentâneos, mas têm um custo elevado para a coesão nacional. A história de Angola já demonstrou, de forma dolorosa, os perigos da radicalização. Cabe agora aos seus líderes escolherem entre repetir erros ou consolidar a paz com maturidade e visão.