O debate político em qualquer sociedade que se pretenda democrática exige mais do que divergência de ideias. Exige elevação moral, responsabilidade institucional e respeito mútuo. Quando esses pilares são ignorados, abre-se espaço para a degradação do discurso público e para o enfraquecimento da própria democracia. É neste contexto que se torna preocupante a postura de certas figuras políticas que, em vez de contribuírem para o amadurecimento do debate nacional, optam por uma retórica agressiva, desprovida de ética e urbanidade.
As declarações atribuídas a Adriano Abel Sapinala, ao caracterizar o MPLA com termos como “traficantes”, “bandidos” e “gatunos”, não configuram apenas uma crítica política dura, ultrapassam os limites do aceitável num Estado de Direito. A crítica, mesmo quando severa, deve estar ancorada em factos, argumentos e propostas alternativas. Quando se transforma em insulto generalizado, perde legitimidade, fragiliza o emissor e empobrece o espaço democrático.
Angola carrega um passado complexo, marcado por conflitos profundos e feridas que ainda cicatrizam. O processo de reconciliação nacional não é um mero slogan político; é um esforço contínuo que exige responsabilidade de todos os actores, especialmente daqueles com voz pública. Discursos inflamados e ofensivos não só reabrem essas feridas, como também alimentam a desconfiança, a polarização e o ressentimento entre cidadãos.
É importante sublinhar que a democracia não se constrói apenas com eleições periódicas, mas também com a qualidade do discurso político. A ausência de ética e urbanidade nas intervenções públicas cria um ambiente tóxico, onde o adversário deixa de ser visto como um concorrente legítimo e passa a ser tratado como inimigo. Essa lógica é perigosa, pois mina os fundamentos do pluralismo e da convivência pacífica.
Além disso, quando figuras políticas recorrem sistematicamente a ataques pessoais ou generalizações ofensivas, desviam o foco das verdadeiras questões que preocupam os cidadãos: desenvolvimento económico, combate à pobreza, melhoria dos serviços públicos, educação, saúde e oportunidades para a juventude. O povo angolano espera soluções, não espetáculos de agressividade verbal.
A responsabilidade é ainda maior quando se trata de líderes ou dirigentes partidários. Estes têm o dever de dar o exemplo, promovendo um debate firme, sim, mas respeitoso e construtivo. A linguagem utilizada no espaço público molda comportamentos e influencia a forma como os cidadãos se relacionam entre si. Quando a linguagem política desce ao nível da ofensa, legitima-se um padrão perigoso que pode transbordar para a sociedade.
Criticar o MPLA, ou qualquer outro partido, é legítimo e faz parte do jogo democrático. No entanto, essa crítica deve ser feita com base em propostas, dados e alternativas claras. Reduzir o debate a insultos não fortalece a oposição, nem contribui para a transparência — pelo contrário, empobrece o debate e afasta os cidadãos mais conscientes e exigentes.
Se Angola pretende consolidar uma democracia madura e inclusiva, é imperativo que os seus actores políticos adotem uma postura mais responsável. A reconciliação nacional exige pontes, não muros; exige diálogo, não provocação; exige maturidade, não impulsividade. A história recente do país já demonstrou os custos elevados da intolerância e do extremismo verbal e político.
Portanto, atitudes e discursos marcados pela falta de ética e urbanidade devem ser firmemente rejeitados pela sociedade, independentemente da sua origem partidária. O futuro democrático de Angola depende, em grande medida, da capacidade dos seus líderes de elevarem o nível do debate e de colocarem o interesse nacional acima de disputas retóricas que pouco ou nada acrescentam ao bem comum.
Deusinho Zambel Santiago
Psicólogo, Jornalista e Analista de Política