ONDE ESTÃO OS MILITANTES CONSEQUENTES E DEFENSORES DOS IDEAIS DO MPLA?
Por uma nova postura política, mais firme, responsável e consequente
Por Kamuambi Ndô Mbâxi
Publicado em 17/08/2026 21:24
Política

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a parecer omissão. Há momentos em que a ausência de reação dos militantes de uma organização política diante dos ataques sistemáticos que lhe são dirigidos levanta uma pergunta inevitável: onde estão os militantes consequentes, os defensores acérrimos dos ideais do MPLA?

A pergunta não pretende transformar o debate político numa guerra de palavras, nem muito menos defender que todo e qualquer erro cometido deva ser escondido ou justificado. Pelo contrário. Um partido com a dimensão histórica do MPLA precisa de militantes capazes de reconhecer erros, apontar insuficiências e exigir correcções. Mas uma coisa é a crítica construtiva, feita com sentido de responsabilidade; outra, completamente diferente, é assistir passivamente à tentativa permanente de transformar qualquer dificuldade, qualquer falha ou qualquer episódio negativo num argumento para descredibilizar toda uma organização.

E é precisamente aqui que se impõe uma reflexão séria.

Onde estão aqueles que, durante anos, se apresentaram como defensores intransigentes dos ideais do MPLA? Onde estão os quadros que conhecem a história do partido, os seus combates, as suas conquistas e também os seus erros? Onde estão os militantes que deveriam ocupar o espaço público com argumentos, ideias e propostas, em vez de deixar as redes sociais transformarem-se num território praticamente sem contraditório?

As redes sociais tornaram-se hoje uma verdadeira arena política. Todos os dias surgem publicações, comentários, vídeos e narrativas que procuram atingir o MPLA, os seus dirigentes, os seus militantes e, por extensão, a sua história e o seu papel na vida nacional.

Diante disso, não se pode exigir que a resposta seja o silêncio.

Mas atenção: responder não significa insultar. Defender não significa perseguir. Contradizer não significa desrespeitar.

O militante consequente não precisa de recorrer à ofensa para defender o seu partido. Precisa de conhecimento, argumentos, serenidade, capacidade de comunicação e, sobretudo, convicção.

O MPLA não precisa de militantes que apenas apareçam quando há cargos, cerimónias ou fotografias. Precisa de militantes que saibam defender ideias também quando a conjuntura é difícil.

O partido não pode viver eternamente prisioneiro dos seus próprios conflitos

Há, entretanto, uma questão ainda mais preocupante, "as fricções internas".

É legítimo haver divergências. É natural existirem diferentes sensibilidades, opiniões e perspectivas. Nenhuma organização política de grande dimensão pode funcionar sem debate interno.

O problema começa quando a divergência deixa de produzir soluções e passa a alimentar guerras pessoais, suspeições, intrigas, campanhas de descredibilização e disputas permanentes.

Enquanto alguns militantes gastam energia a combater outros militantes, o adversário político observa e vê sua oportunidade aproximar-se.

Enquanto quadros se digladiam por questões internas, outros ocupam o espaço público.

Enquanto uns procuram descobrir quem deve ser responsabilizado, outros constroem narrativas para convencer a sociedade.

E cada minuto perdido em quezílias internas pode transformar-se numa oportunidade para o adversário.

Esta é uma realidade que nenhum militante responsável deveria ignorar.

O partido precisa de compreender que a sua maior força não estará apenas na quantidade dos seus militantes, mas na capacidade de mobilizar os seus melhores quadros, aproveitar a experiência acumulada e transformar as lições do passado em instrumentos para construir o futuro.

É tempo de aprender com os erros

Defender o MPLA não significa afirmar que tudo foi perfeito.

Nenhuma governação é imune a erros. Nenhum dirigente é infalível. Nenhuma estrutura administrativa funciona sem falhas. Existem decisões que poderiam ter sido melhores, políticas que precisam de ser corrigidas, práticas que devem ser abandonadas e comportamentos que merecem crítica.

Mas reconhecer erros não significa renunciar à própria identidade. Pelo contrário, a grandeza de uma organização mede-se também pela sua capacidade de aprender.

O MPLA tem décadas de experiência política, administrativa e governativa. Os seus melhores quadros acumularam conhecimentos, enfrentaram crises, participaram em processos complexos e aprenderam com sucessos e fracassos. Essa experiência não deve ser desperdiçada.

É precisamente por isso que se exige uma nova postura.

Uma postura de maior humildade, maior disciplina, maior capacidade de ouvir, maior proximidade com o cidadão e maior competência na condução dos destinos do país.

Não basta repetir palavras de ordem. É preciso apresentar resultados.

Não basta falar de patriotismo. É preciso demonstrá-lo através do trabalho.

Não basta defender o partido. É necessário defender também a credibilidade das suas instituições, a confiança dos cidadãos e os valores que sustentam a República.

O silêncio não pode ser a estratégia

Há também uma pergunta que precisa de ser feita aos militantes com responsabilidade pública:

Por que razão muitos permanecem silenciosos perante determinadas campanhas diabolizantes contra o MPLA nas redes sociais? Será medo de falar? Será receio de serem confundidos com defensores de pessoas? Será acomodação? Ou será simplesmente falta de preparação política e comunicacional?

Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: o vazio comunicacional nunca permanece vazio. Alguém irá ocupá-lo.

Quando os militantes de uma organização deixam de comunicar, outros comunicam por eles. Quando deixam de explicar, outros explicam à sua maneira.

Quando deixam de apresentar a sua versão dos factos, outros constroem versões que passam a ser aceites como verdades.

Por isso, o MPLA precisa de uma militância mais preparada para o debate contemporâneo. Uma militância que saiba utilizar as redes sociais não apenas para publicar fotografias de actividades, mas para discutir ideias, apresentar resultados, esclarecer dúvidas e responder, com inteligência, às críticas legítimas.

Não transformar o adversário interno em inimigo

Outro erro que precisa de ser combatido é a tendência de transformar qualquer divergência interna numa declaração de guerra.

Um camarada que pensa diferente não é necessariamente inimigo.

Um quadro que questiona uma decisão não é necessariamente traidor.

Um militante que critica uma determinada prática não está automaticamente contra o partido.

É preciso recuperar a cultura do debate político sério.

O inimigo político deve ser enfrentado politicamente; o camarada deve ser convencido, ouvido ou, quando necessário, contraditado dentro das regras da organização.

Quando os próprios militantes passam mais tempo a destruir a reputação uns dos outros do que a defender o projecto político que dizem abraçar, alguma coisa está profundamente errada.

O futuro exige outra atitude

O país precisa de organizações políticas fortes, responsáveis e capazes de apresentar soluções.

O MPLA, pela sua história e pelo seu peso na vida nacional, tem a obrigação de estar à altura desse desafio.

Isso exige quadros com visão.

Exige juventude com espaço para participar.

Exige experiência dos mais velhos sem exclusão dos mais novos.

Exige disciplina sem sufocar o pensamento crítico.

Exige unidade sem confundir unidade com silêncio.

Exige liderança sem culto de personalidade.

E exige, acima de tudo, trabalho.

Os melhores quadros do partido precisam de colocar a sua experiência ao serviço do país, sem permitir que disputas pessoais, ressentimentos ou ambições individuais destruam aquilo que levou décadas a construir.

O tempo das pequenas guerras internas precisa de dar lugar ao tempo das grandes prioridades nacionais.

Porque enquanto uns discutem quem deve aparecer mais numa fotografia, há cidadãos preocupados com emprego, saúde, educação, segurança, habitação, transportes e melhores condições de vida.

É para essas pessoas que a política deve trabalhar.

Uma chamada de atenção à militância

A defesa do MPLA não pode ser responsabilidade de meia dúzia de dirigentes.

Também não pode depender apenas dos discursos feitos nos grandes palcos.

A defesa começa na base.

Começa no militante que conhece a história da organização.

Começa no quadro que sabe explicar as políticas públicas.

Começa no jovem que participa no debate digital com argumentos.

Começa naquele que, mesmo discordando de uma decisão, não abandona a responsabilidade de contribuir para melhorar.

E começa, sobretudo, na consciência de que um partido forte não é aquele que nunca é criticado; é aquele que sabe responder à crítica, corrigir os seus erros e apresentar um projecto credível para o futuro.

Por isso, a pergunta permanece:

Onde estão os militantes consequentes?

Onde estão os homens e mulheres preparados para defender ideias, e não pessoas?

Onde estão os quadros capazes de transformar experiência em soluções?

Onde estão aqueles que entendem que a unidade é uma necessidade política e não uma simples palavra de circunstância?

É hora de aparecerem.

Não para atacar quem pensa diferente.

Não para alimentar guerras internas.

Não para justificar o injustificável.

Mas para defender, explicar, corrigir, construir e mobilizar.

Porque se os militantes passarem demasiado tempo a combater uns contra os outros, não precisarão de procurar muito para descobrir quem ganhou.

Terá sido o adversário.

E a história política ensina uma lição simples: quando uma organização abre demasiadas portas para as suas próprias divisões, alguém do lado de fora acabará por encontrar a chave.

O MPLA precisa de fechar essas portas com unidade, trabalho, competência, renovação, disciplina e sentido de Estado.

Não se trata de defender erros.

Trata-se de não permitir que os erros sejam utilizados para apagar toda uma história.

Não se trata de negar a crítica.

Trata-se de exigir uma crítica responsável.

Não se trata de silenciar divergências.

Trata-se de impedir que divergências se transformem em destruição interna.

O momento exige militantes presentes, conscientes e consequentes. Exige quadros preparados para o combate político das ideias. E exige uma nova postura para conduzir os destinos do país com base nas lições acumuladas, na experiência adquirida e, sobretudo, na capacidade de servir Angola.

 

Por: Deusinho Zambel Tiago,

Jornalista, Psicólogo e Analista de Política

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