Angola atravessa uma etapa da sua história em que todos os cidadãos, independentemente das suas convicções políticas, religiosas, sociais ou ideológicas, são chamados a assumir uma postura de elevada responsabilidade patriótica. Num país que conquistou a paz depois de décadas de conflito, nenhum angolano deve aceitar que a legítima insatisfação social, o debate político ou o direito à manifestação sejam transformados em instrumentos de desestabilização, violência ou destruição das instituições do Estado.
A manifestação é um direito. A liberdade de expressão é um direito. A participação política é um direito. Mas nenhum direito deve ser utilizado como pretexto para colocar em causa a vida, a segurança, os bens dos cidadãos e a estabilidade da República.
É precisamente por isso que deve merecer profunda reflexão a convocação permanente do povo para, supostamente, se revoltar contra os órgãos democraticamente instituídos e contra o partido que governa o país. O debate político deve ser feito nas instituições, nas comunidades, nos meios de comunicação social, nas organizações da sociedade civil e, sobretudo, através dos mecanismos democráticos constitucionalmente estabelecidos — e não através da incitação à confrontação entre angolanos.
Angola não pode transformar diferenças políticas em guerras entre irmãos.
A História ensinou-nos, com enorme sofrimento, que quando a política abandona o caminho do diálogo e passa a alimentar o ódio, a intolerância e a confrontação, quem mais sofre não são necessariamente os dirigentes políticos. Sofre o cidadão comum: o trabalhador, o comerciante, o estudante, o camponês, o motorista, o funcionário público, a criança, o idoso e a família que apenas deseja viver em paz.
Por isso, é fundamental que os angolanos tenham discernimento para distinguir manifestação legítima de mobilização destrutiva; crítica política de incitação ao ódio; exercício da cidadania de manipulação das massas.
Nenhum partido político, organização ou liderança deve colocar os interesses da sua estratégia acima do interesse nacional.
A República pertence a todos.
Os órgãos de soberania pertencem ao Estado, e não a uma determinada corrente partidária. As instituições públicas devem ser respeitadas, fiscalizadas e criticadas quando necessário, mas também devem ser defendidas enquanto pilares do Estado de Direito Democrático.
Isso não significa defender erros, abusos ou más práticas. Pelo contrário: uma democracia forte precisa de cidadãos atentos, imprensa livre, oposição responsável, instituições fiscalizadoras atuantes e capacidade permanente de corrigir aquilo que estiver mal.
Criticar não é destruir. Discordar não é odiar. Protestar não é incendiar. Fazer oposição não significa convocar os cidadãos para a ruptura da ordem constitucional.
A democracia vive precisamente da possibilidade de alternância, competição política e confronto de ideias dentro das regras estabelecidas.
É neste ponto que deve ser feito um apelo especial à juventude angolana. Os jovens não podem ser transformados em instrumentos descartáveis de agendas políticas que, depois de provocarem confrontos, deixam para trás famílias enlutadas, património destruído e comunidades divididas.
A juventude deve ser protagonista do desenvolvimento, da inovação, do empreendedorismo, da cultura, da ciência e da construção de uma Angola mais próspera — e não combustível para confrontações políticas.
Cada jovem deve perguntar antes de aderir a qualquer convocação: quem ganha com a minha revolta? Quem assumirá a responsabilidade se houver mortes? Quem pagará pelos prejuízos? Quem reconstruirá aquilo que for destruído? E, sobretudo, quem poderá devolver à minha família a vida de alguém que eventualmente venha a morrer num confronto?
São perguntas que não podem ser ignoradas.
A paz não deve ser encarada como algo adquirido para sempre. A paz é uma construção diária. Exige responsabilidade das autoridades, mas também exige maturidade dos partidos políticos, dos líderes de opinião, da comunicação social, das organizações juvenis, das igrejas, das associações e de cada cidadão.
Nenhuma divergência política justifica que um angolano trate outro angolano como inimigo.
A pátria de Agostinho Neto, de todos os seus filhos e de todos aqueles que sacrificaram as suas vidas pela independência e pela paz, merece mais do que discursos inflamados. Merece responsabilidade.
É necessário, portanto, apelar aos angolanos para que não se deixem instrumentalizar por correntes, grupos ou indivíduos que possam pretender transformar legítimas preocupações sociais em combustível para aventuras políticas de consequências imprevisíveis.
O cidadão deve exigir melhores serviços públicos, emprego, saúde, educação, justiça, segurança, habitação e melhores condições de vida. Deve cobrar os governantes. Deve questionar as políticas públicas. Deve participar activamente na vida nacional.
Mas deve fazê-lo com consciência de que a destruição do Estado não resolve os problemas do povo.
Uma estrada destruída não beneficia o cidadão. Uma escola incendiada não educa nenhuma criança. Um hospital vandalizado não salva vidas. Um estabelecimento comercial saqueado não cria emprego. Uma instituição pública destruída não melhora a governação. E uma sociedade mergulhada no medo não constrói desenvolvimento.
Por isso, Angola precisa de uma nova cultura de participação política: mais debate e menos ódio; mais propostas e menos destruição; mais cidadania e menos manipulação; mais diálogo e menos confrontação.
As divergências fazem parte da democracia. A pluralidade política também. O que não pode fazer parte da democracia é a tentativa de transformar o povo numa massa de manobra para destruir aquilo que pertence a todos.
O partido que governa pode ser criticado. A oposição pode ser criticada. Os governantes podem ser responsabilizados. As instituições podem e devem ser aperfeiçoadas. Mas tudo isso deve acontecer dentro da legalidade e do respeito pela Constituição e pelos direitos fundamentais.
Angola precisa de adversários políticos, não de inimigos nacionais.
Precisa de cidadãos exigentes, mas responsáveis. Precisa de uma juventude participativa, mas consciente. Precisa de uma imprensa crítica, mas comprometida com a verdade. Precisa de partidos políticos combativos, mas patrióticos. Precisa de instituições fortes, transparentes e cada vez mais próximas do cidadão.
O futuro de Angola não pode ser construído pela violência.
Que ninguém confunda coragem com vandalismo. Que ninguém confunda patriotismo com destruição. Que ninguém transforme a insatisfação legítima do povo numa arma contra o próprio povo.
A democracia deve ser defendida com democracia.
E a melhor resposta aos problemas nacionais não está na destruição, mas na capacidade colectiva de corrigir, reformar, participar, fiscalizar, dialogar e construir.
Angola é maior do que qualquer partido. Angola é maior do que qualquer dirigente. Angola é maior do que qualquer disputa eleitoral. Angola é a casa comum de todos nós.
Defendê-la é responsabilidade de todos.
Pela paz. Pela democracia. Pelo Estado de Direito. Pela unidade nacional. Pela vida dos angolanos. Pela República de Angola.