E D I T O R I A L V
QUANDO O BARULHO DO TAMBOR ABALA O DIPLOMA
Por Kamuambi Ndô Mbâxi
Publicado em 30/08/2026 18:26
Sociedade

Há uma doença silenciosa a contaminar o espaço público: a facilidade com que alguns transformam propaganda em verdade, rumor em facto e publicação nas redes sociais em prova documental.

O problema não está nas redes sociais. O problema está em quem abandona o senso crítico, desliga o cérebro profissional e passa a dançar ao ritmo do primeiro tambor que aparece no ecrã.

Quem se deixa conduzir por narrativas fabricadas, interpretações apressadas e informações sem confirmação pode até ganhar alguns minutos de notoriedade, mas perde algo muito mais valioso: a credibilidade profissional.

Um diploma não é um adereço para fotografias. Um diploma representa anos de estudo, sacrifício, investigação, disciplina e responsabilidade. E, sobretudo, representa uma promessa: a promessa de que o seu titular saberá distinguir evidência de especulação, facto de opinião e verdade de propaganda.

Por isso, quando um servidor da Justiça abandona o rigor que a sua função exige e se deixa conduzir pelo barulho das redes sociais, não está apenas a cometer uma imprudência. Está a colocar o próprio diploma diante de uma lareira.

Porque na Justiça não se decide com base no “ouvi dizer”. Não se condena porque alguém publicou. Não se interpreta a lei porque determinado conteúdo viralizou. A Justiça exige prova, procedimento, contraditório, enquadramento jurídico e responsabilidade.

O mesmo princípio vale para a Comunicação Social.

Um jornalista não pode ser um simples repetidor profissional da internet.

Se um profissional da Comunicação Social transforma qualquer publicação das redes sociais em fonte automática das suas matérias, sem verificar autoria, contexto, autenticidade, data, origem, contraditório e confirmação independente, então deixou de fazer jornalismo para fazer eco.

E jornalismo de eco é aquele em que a notícia nasce numa publicação, cresce num grupo de WhatsApp, ganha musculatura num comentário de Facebook, recebe uma fotografia fora de contexto e finalmente chega ao portal com o pomposo título de “informação exclusiva”.

Exclusiva de quê? Da falta de verificação? Da ausência de fontes? Da pressa? Da irresponsabilidade? Não!

O jornalismo profissional não pode funcionar como uma impressora de rumores.

Quem trabalha com informação precisa saber que viralidade não é veracidade. Número de partilhas não constitui prova. Comentários não substituem fontes. Capturas de ecrã não substituem documentos. Um vídeo sem contexto não explica necessariamente o acontecimento. E uma publicação de uma pessoa com milhares de seguidores continua a ser uma publicação — não uma sentença, não um acórdão, não um relatório de investigação.

É aqui que muitos confundem velocidade com competência.

Querem ser os primeiros a publicar, mas esquecem-se de que ser o primeiro a publicar uma mentira não transforma ninguém em grande jornalista.

Pelo contrário.

Às vezes, o segundo a publicar, depois de verificar, confirmar e contextualizar, é precisamente o primeiro a fazer jornalismo.

E há uma pergunta que deveria perseguir todo profissional antes de carregar no botão “PUBLICAR”:

“Se amanhã tiver de responder perante os factos, as fontes e a minha própria consciência profissional, continuo a sustentar o que estou prestes a publicar?”

Se a resposta for não, então há apenas uma decisão sensata: não publicar.

A Comunicação Social não pode transformar-se num tribunal de redes sociais. Jornalistas não são juízes de Facebook. Repórteres não são investigadores de comentários. Editores não podem ser simples gestores de tendências.

A profissão exige método. Exige ouvir o outro lado. Exige procurar documentos. Exige confirmar. Exige confrontar versões. Exige separar informação de opinião. Exige reconhecer quando uma informação ainda não está suficientemente comprovada. E, sobretudo, exige coragem para dizer: “Ainda não tenho elementos suficientes para publicar.”

Isso não é fraqueza, isso é profissionalismo.

O verdadeiro profissional não corre atrás de todo tambor que toca. Ele pergunta primeiro quem está a tocar, por que toca, para quem toca e o que pretende fazer acreditar com aquele barulho.

Porque a propaganda moderna já não precisa necessariamente de grandes palanques. Às vezes cabe num telefone, numa conta anónima, num vídeo de quinze segundos ou numa frase cuidadosamente construída para provocar indignação. E quem não possui ferramentas de análise transforma-se facilmente em instrumento de quem sabe manipular.

É por isso que pensar antes de partilhar é também uma forma de cidadania. E verificar antes de publicar é uma forma de respeito pelo público.

Aqueles que se deixam cair nos enganos da propaganda das redes sociais e, a partir deles, constroem ilações erradas, fazem mais do que errar: desvalorizam o próprio percurso profissional. Porque um diploma pode ser pendurado numa parede. Mas credibilidade só se conquista no exercício diário da profissão, e pode ser destruída numa única publicação.

No fim, fica o essencial:

Não é porque está na internet que é verdade. Não é porque viralizou que aconteceu daquela maneira. Não é porque alguém escreveu que está provado. Não é porque tem milhares de seguidores que possui razão. E, sobretudo, "NÃO É PROFISSIONAL QUEM PUBLICA PRIMEIRO. É PROFISSIONAL QUEM PUBLICA CERTO".

Quem quiser dançar ao som do tambor das redes sociais que dance. Mas que não reclame depois quando perceber que, no meio da dança, deixou o diploma cair no fogo.

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