QUANDO A OFENSA VIRA MÉTODO
ATÉ ONDE ESTAMOS A PERDER O RESPEITO PELA HONRA E DIGNIDADE HUMANA?
Por Kamuambi Ndô Mbâxi
Publicado em 01/09/2026 08:01
Sociedade
Um teclado não transforma ninguém em dono da verdade. Um perfil numa rede social não confere autoridade para destruir a vida de outra pessoa.

Há momentos em que uma sociedade precisa de parar, respirar fundo e perguntar a si mesma: até onde estamos a ir?

As redes sociais, que deveriam ser instrumentos de comunicação, participação cívica e exercício da liberdade de expressão, estão, em determinados casos, a transformar-se em autênticas arenas de destruição moral. Pessoas são insultadas, humilhadas, enxovalhadas e acusadas publicamente sem provas. Governantes, servidores públicos e cidadãos comuns tornam-se alvos de ataques pessoais, calúnias, difamações e, em situações ainda mais graves, até de ameaças de morte.

E o mais preocupante não é apenas a violência verbal, mas é a normalização dessa violência.

Há quem veja uma publicação carregada de insultos e passe adiante como se nada tivesse acontecido. Há quem leia uma ameaça e a trate como simples desabafo. Há quem assista ao assassinato público da reputação de uma pessoa e prefira o silêncio, talvez porque a vítima seja alguém de quem não gosta, exerça uma função pública ou simplesmente esteja do lado político que não merece a sua simpatia.

Mas é preciso dizer com frontalidade: a dignidade humana não pode depender da simpatia política de ninguém.

Um administrador, um director, um funcionário público ou qualquer outro servidor do Estado não deixa de ser pessoa pelo facto de exercer uma função pública. Pode ser criticado. Deve ser fiscalizado. Pode ser questionado. As suas decisões podem e devem ser escrutinadas.

Mas crítica não é insulto. Fiscalização não é perseguição. Liberdade de expressão não é licença para destruir reputações.

Chamar alguém de “bandido”, “ladrão”, “corrupto” ou atribuir-lhe crimes sem apresentar qualquer fundamento não constitui, por si só, exercício elevado da cidadania. Pode representar precisamente o contrário: a degradação do debate público e o empobrecimento da cultura cívica.

Uma sociedade que começa a confundir liberdade com impunidade corre o risco de transformar a praça pública num território onde vence não quem tem razão, mas quem grita mais alto, insulta mais violentamente ou ameaça com maior crueldade.

O ASSASSINATO DOS VALORES SOCIOCULTURAIS

O problema ultrapassa a política.

Estamos perante uma erosão preocupante de valores que durante gerações sustentaram a convivência entre pessoas: respeito pelos mais velhos, consideração pelo próximo, responsabilidade pelas palavras, sentido de comunidade e consciência de que a liberdade de cada um encontra limites no direito do outro à dignidade e à segurança.

Quando alguém acorda, pega no telefone e decide atacar gratuitamente a honra de outra pessoa, não estamos apenas perante uma publicação nas redes sociais.

Estamos perante um sintoma de uma doença social mais profunda: a banalização da agressividade como forma de comunicação.

E quando essa agressividade passa para ameaças de morte, a questão deixa de ser apenas moral ou política. Torna-se uma matéria que deve merecer a devida atenção das instituições competentes.

Ninguém deve ser ameaçado de morte por exercer uma função pública. Ninguém deve ser perseguido digitalmente porque tomou uma decisão administrativa.

Ninguém deve ser transformado em criminoso aos olhos da opinião pública simplesmente porque alguém decidiu escrever uma acusação numa página de Facebook.

QUEM PROTEGE A VÍTIMA DA EXECUÇÃO DIGITAL?

Existe ainda uma questão particularmente incómoda: quem protege a pessoa que é publicamente destruída sem direito à defesa?

Quem intervém quando uma fotografia é publicada acompanhada de insultos?

Quem reage quando uma família inteira passa a conviver com comentários ofensivos contra um dos seus membros?

Quem denuncia quando uma ameaça de morte é lançada publicamente?

E quem se responsabiliza quando a sociedade, por indiferença, permite que a mentira seja repetida tantas vezes que acaba por parecer verdade?

Não se pode defender a dignidade humana apenas quando a vítima pertence ao nosso círculo de amizade, ao nosso partido ou à nossa corrente de pensamento.

A dignidade é universal.

Se hoje toleramos a humilhação de alguém de quem discordamos, amanhã poderemos ser nós os alvos da mesma multidão digital.

GOVERNANTES NÃO SÃO INTOCÁVEIS — MAS TAMBÉM NÃO SÃO SACOS DE PANCADA

É fundamental estabelecer uma diferença.

Os titulares de cargos públicos não podem exigir imunidade contra a crítica. Quem governa administra recursos públicos, toma decisões que afectam comunidades e, por isso, deve prestar contas.

Governar implica responsabilidade. Mas criticar também.

O cidadão tem o direito de perguntar, denunciar factos, exigir transparência, contestar políticas públicas e manifestar descontentamento.

O que não pode ser normalizado é transformar a crítica política em linchamento moral, nem substituir argumentos por insultos e provas por acusações.

Se existe suspeita de corrupção, apresente-se a denúncia às instituições competentes. Se existe abuso de poder, que se apresentem factos. Se existe má gestão, que se mostrem documentos, números e evidências. Se existe crime, que se procure a Justiça.

A rede social não pode transformar-se simultaneamente em tribunal, Ministério Público, polícia e carrasco.

O SILÊNCIO TAMBÉM PODE SER PERIGOSO

É igualmente necessário questionar aqueles que assistem a tudo isto e permanecem silenciosos. Não se trata de exigir que todos defendam governantes. Trata-se de exigir que todos defendam princípios.

Quem acredita na democracia deve defender o direito à crítica, mas também o direito à honra. Quem acredita na liberdade deve rejeitar a censura, mas também repudiar a ameaça. Quem acredita na Justiça deve permitir a denúncia, mas rejeitar a condenação sem provas. E quem diz defender os direitos humanos não pode escolher quais seres humanos merecem dignidade.

NÃO PODEMOS TRANSFORMAR A INTERNET NUMA SELVA MORAL

É urgente recuperar o sentido de responsabilidade. Antes de publicar, é preciso pensar. Antes de acusar, é preciso verificar. Antes de insultar, é preciso lembrar que existe uma pessoa do outro lado. Antes de ameaçar, é preciso compreender que palavras podem produzir consequências reais.

Um teclado não transforma ninguém em dono da verdade. Um perfil numa rede social não confere autoridade para destruir a vida de outra pessoa.

A democracia precisa de cidadãos vigilantes, não de multidões enfurecidas. Precisa de crítica, não de ódio. Precisa de investigação, não de boatos. Precisa de coragem para denunciar, mas também de responsabilidade para provar. Porque uma sociedade que perde o respeito pela honra do outro começa, silenciosamente, a perder o respeito por si própria.

Hoje é o governante. Amanhã pode ser o funcionário público. Depois pode ser o jornalista. No dia seguinte pode ser o professor, o empresário, o estudante ou qualquer cidadão comum.

E quando a ofensa, a humilhação e a ameaça se tornam normais, já não estamos perante um problema de uma pessoa.

Estamos perante uma crise de valores.

Por isso, é tempo de dizer basta.

Critiquemos governos, mas não destruamos pessoas.

Fiscalizemos servidores públicos, mas não os transformemos em alvos de ódio.

Exijamos transparência, mas não inventemos crimes.

Exerçamos a liberdade, mas assumamos a responsabilidade pelas palavras.

Porque liberdade sem responsabilidade transforma-se em abuso; crítica sem respeito transforma-se em violência; e uma sociedade sem respeito pela dignidade humana corre o risco de perder aquilo que ainda a mantém unida.

A honra de uma pessoa não pode ser moeda de troca para ganhar “gostos”, seguidores ou aplausos virtuais. E talvez seja precisamente aqui que precisamos de começar a reconstruir os nossos valores: lembrando que, por trás de cada fotografia, de cada nome e de cada perfil atacado nas redes sociais, existe um ser humano.

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"Não faça ao outro aquilo que não gosta que te façam"

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